Votação



Nas próximas duas semanas os vimaranenses têm pela frente a discussão que ajudará a clarificar qual o melhor projecto para liderar a cidade e o concelho ao longo dos próximos quatro anos. O emprego e a crise social são desafios de hoje, com a aventura da Capital Europeia da Cultura e espreitar lá para o fim do mandato, condicionando muitas das suas decisões.
Este é um momento particularmente relevante para Guimarães. Magalhães joga tudo no último mandato permitido por lei, com a CEC como bandeira. O PSD tem um projecto que conseguiu convencer alguns habituais votantes de esquerda. A CDU aposta no segundo vereador, mas com as mesmas caras. O CDS fez uma forte aposta com Rui Barreira que lhe deverá garantir uma subida de votação. O BE, à boleia dos resultados nacionais, está também a crescer.
O PSD foi o primeiro a apresentar o seu programa eleitoral autárquico. Hoje será a vez do PCP e, amanhã, do PS. O Colina Sagrada vai trazer aos seus leitores algumas das principais linhas de força dos programas dos diferentes partidos.
Para acompanhar estas eleições, decidimos também lançar uma iniciativa que abre, como temos feito noutros momentos marcantes, a participação cívica a outros protagonistas. Chama-se “Se esta Câmara fosse minha” e foi uma desafio lançado a cinco vimaranenses para que apresentassem ideias, medidas e soluções para os problemas e desafios que se colocam a Guimarães nos próximos quatro anos.
Fruto de uma parceira com a Cervejaria e Restaurante Vira-Bar, vamos também entrevistar algumas das principais figuras que se candidatam à câmara de Guimarães. A partir do final desta semana começaremos também a publicar o resultado dessas conversas.
Ao longo das próximas semanas vamos como habitualmente acompanhar e comentar as entrevistas, debates e acções públicas dos vários partidos. Deste modo, esperamos contribuir para uma decisão mais esclarecido dos vimaranenses no próximo dia 11.

Os resultados das Legislativas em Guimarães confirmam as tendências distritais. O PS é o vencedor, com cerca de 47 por cento dos votos, mas perde mais de dois mil votos face há quatro anos. Quem cresce, e cresce muito, são CDS e BE.
Os populares são embalados pelo excelente resultado nacional e regional e ganha quase 1400 votos, tornando-se a terceira força política no concelho. Já os bloquistas alinham pelo crescimento nacional e aumentam a votação na casa dos 40 por cento (7800 votos, face aos 4700 de 2005). O MRPP, que é um fenómeno autárquico particular, mantém sensivelmente a mesma votação.
Os resultados são maus para o PSD, que não só não encurta distâncias para o PS como ainda pede votos (cerca de 400). E são também votações negativas pata a CDU, que perde mais de 600 votos, não conseguindo capitalizar o trabalho de Agostinho Lopes e das estruturas locais dos comunistas.
Bem sei que as eleições são diferentes, mas os resultados devem deixar António Magalhães e o PS satisfeitos. Pelo menos partem com vantagem confortável para as autárquicas do próximo dia 11, ainda que tenham ganham em freguesias que são social-democratas e cuja mudança não é expectável.
Mas vejamos: Face às autárquicas o PS tem mais mil e poucos votos, enquanto que o PSD perde mais de três mil. A CDU é que parece ter mais expressão local do que nacional. Pelo menos é o que parece sugerir os 3500 votos a mais que tem nas autárquicas.
Nesta análise, BE e CDS voltam a merecer destaque: Os populares tiveram míseros 2400 votos nas locais de 2005 e, meses depois, mais de 6000 mil nas nacionais. Com o crescimento que tiveram hoje e a aposta forte na campanha, podem surpreender. O mesmo pode acontecer com o BE (1900 votos nas autárquicas), ainda que os dois cabeças de lista sejam bem distintos. Começa hoje uma corrida intensa a Santa Clara.
O PS ganhou as eleições legislativas, mas as dúvidas sobre o futuro de Portugal ainda não estão desfeitas. Os próximos dias serão decisivos, mas os socialistas só terão uma maioria estável de fizerem uma coligação com o PP. Aliás, o CDS é o grande vencedor da noite, tal como antecipava aqui.
A nível distrital, o CDS é também um dos vencedores. Pela primeira vez em muitos anos, os populares chegam aos dois deputados em Braga. O peso da crise, em lugar de beneficiar a esquerda – como previa – veio dar força ao CDS. Já o PSD teve um resultado decepcionante, perdendo, aliás, um deputado face a 2005. Virgílio Costa tinha pedido nove mandatos, teve apenas seis. Veremos com que consequências.
Ao contrário do que antecipava na sexta-feira, a CDU não disputou o seu segundo deputado. Agostinho Lopes é o único eleito num resultado muito próximo do de há quatro anos (mais 49 votos, sinal de estabilidade do eleitorado). Já o Bloco de Esquerda elege o primeiro deputado no distrito, conquistando mais quase 17 mil eleitores face às últimas legislativas.
Mas o grande triunfo distrital é do PS. Os socialistas mantêm os mesmos nove deputados, o que contraria as sondagens feitas nos últimos tempos e até alguma da lógica da análise: a região tem sido fustigada pela crise e pelo desemprego e o PS até votou contra algumas medidas de excepção para os vales do Cávado e Ave. Perde quase 11 mil eleitores, mas mantém os mesmos mandatos.
Uma última palavra para Manuel Monteiro. O auto-intitulado "Deputado do Minho" não vai representar ninguém nos próximos quatro anos. Todo o ruído feito pelo ex-líder do CDS nos últimos anos acabou por não resultar na eleição desejada e ainda perdeu mais de 500 votos face a 2005.
A forma como é feita a campanha dos partidos e a sua cobertura pela comunicação social nacional introduz um distorção na votação. É um equívoco útil, particularmente aos grandes partidos: Ao contrário da mensagem que é feira passar, no domingo não vamos votar em José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Jerónimo de Sousa ou Francisco Louçã.
A votação é distrital e por isso, o que está em jogo, é escolher entre António José Seguro (e Miguel Laranjeiro), João de Deus Pinheiro (e Francisca Almeida e Emídio Guerreiro), Agostinho Lopes, Telmo Correia ou Pedro Soares, com uma novidade chamada Manuel Monteiro, que corre por fora, tentando assumir-se como deputado de Minho (sem sucesso, arrisco antecipar).
Vale a pena analisar o que fizeram os deputados de cada um dos partidos nesta legislatura. E olho para Agostinho Lopes, um dos mais activos de toda a AR, e Miguel Laranjeiro, o melhor estreante nestas andanças, como exemplos do que deve ser um deputado preocupado com a região que o elege. E vale a pena perceber o que cada um tem para oferecer no próximo mandato.
Felizmente a Rádio Universitária do Minho fez uma excelente cobertura destas eleições: Entrevistas individuais com cada um dos cabeças de lista, um debate a cinco e acompanhamento diário das acções de campanha distritais. Pessoalmente, foi a única forma de ficar a par das ideias dos candidatos distritais e de assim poder fazer uma melhor escolha.
Os últimos dados disponíveis permitem perceber que, dos 19 deputados que o distrito de Braga vai eleger, há 17 praticamente definidos (7 para cada um dos dois grandes partidos e um deputado para as outras três forças com assento parlamentar).
Parece certo que o BE não sobe além do primeiro deputado eleito por Braga na sua história, mas CDU e CDS disputam o segundo mandato, enquanto PS e PSD ficam à espera de perceber quem leva a melhor na recta final da campanha, para garantir o outro deputado em jogo. É esta a decisão que importa no domingo. Ainda não tomei a minha, mas a escolha já esteve mais longe.
Em teoria as campanhas autárquicas deviam servir para mostrar e explicar aos cidadãos as propostas de governação que cada um dos partidos apresenta para o mandato seguinte. Deviam também avaliar a governação que cessa. Devia ter sido assim durante os últimos quinze dias. Mas esta campanha foi claramente desperdiçada.
O único partido que conseguiu fazer passar a sua mensagem foi o CDS. As propostas de Paulo Portas sobre criminalidade e rendimento mínimo colhem numa população racista, mal formada e socialmente preconceituosa. À Esquerda houve dificuldades de afirmação, entre a possibilidade ser governo com o PS e as críticas à mesma força.
Mas o maior ruído da campanha foi culpa do PS e do PSD. Inteligentemente, a estratégia socialista evitou deixar que a discussão se debruçasse sobre a governação. A crise económica e social, o ambiente crispado com os professores, o código do trabalho, valem demasiados votos e os socialistas não podiam correr o risco que estas matérias pesassem na hora de votar. Para o evitarem nem tiveram que se esforçar muito. Bastou que a principal opositora fosse Manuela Ferreira Leite.
A falta de destreza da líder do PSD nos debates televisivos fragilizou-a, particularmente e tirada bolorenta sobre a entrada dos espanhóis em Portugal (isto dava todo um outro a artigo, mas como nota história a senhora até devia saber que a distância entre carris em Portugal foi escolhida para estar em conformidade com Espanha, obrigando a refazer linhas já no século XIX). A teoria da asfixia democrática (até o termo é infeliz) ruiu como um baralho de cartas.
E a responsabilidade até foi de alguém próximo de MFL, que prometeu não se meter na campanha, mas acabou por dar cabe dela. A gestão da comunicação de Cavaco Silva foi, ao longo de todo o processo eleitoral, verdadeiramente catastrófica. Sobre o episódio das escutas há muito por explicar e isso devia ter sido feito o quanto antes. Não o fazendo, Cavaco enche de ruído a campanha, dispersando a atenção de políticos, jornalistas e dos eleitores.
E assim matou uma campanha que já estava a ser fraquinha, mas pior ficou. O que é particularmente triste numa eleição em que havia tantos motivos de divergências entre os vários partidos em áreas tão marcantes como a Segurança Social, a Saúde ou a Educação.
No meio disto, perdeu o povo, que tem menos ferramentas para decidir um voto responsável. E perdeu, fundamentalmente, a democracia, que sai destas eleições um pouco mais rebaixada do que quando a campanha começou.
A referência chega um pouco atrasada, mais ou menos ao ritmo que tenho tido para ler a blogosfera local. À pertinência habitual das intervenções de Amaro das Neves no Araduca, desta feita juntam-se propostas consistentes para a CEC 2012. Das poucas que, para já, tenho lido e ouvido por aí.
Vale a pena por isso lê-las (aqui e aqui), tal como o enquadramento que é feito no mesmo blogue [1, 2, 3].
Já passaram mais de dois meses desde que a CEC foi apresentada. Desde então, nada mudou. Percebo o dilema: Se alguma coisa fosse divulgada por estes dias, choveriam acusações de eleitoralismo. Mas este desafio é demasiado grande para ficar dependente dos calendários dos sufrágios.
O estudo de públicos do CCVF analisou uma perspectiva que me pareceu interessante, particularmente do ponto de vista da imagem externa de Guimarães. Os investigadores pediram aos espectadores que destacassem as três ideias que associaram a Guimarães.
A primeira ideia tem muito a ver com o Património. Cidade-Berço, Castelo, História e D. Afonso Henriques foram as ideias mais referidas, mas logo seguidas de Cultura. Na segunda e terceira ideias associadas a Guimarães, o maior número de respostas dadas foi precisamente Cultura. Tratando-se de questões de resposta aberta os dados têm ainda mais valor. De facto, Guimarães é hoje uma cidade associada nacionalmente à cultura, como o estudo demonstra.
Desde logo, o dado que salta à vista é que o CCVF é uma sala de todo o Norte. 58 por cento dos espectadores são de fora de Guimarães. De entre estes, os habitantes do Grande Porto (40 por cento) e de Braga (17 por cento) são os que mais frequentemente assistem a espectáculos naquele espaço, mas a abrangência do centro cultural chega também à zona centro e à Galiza.
Vejo este sinal como positivo da forma marcante como o CCVF tem contribuído para divulgar Guimarães. No entanto, de entre os vimaranenses que são frequentadores habituais do centro cultural, há um claro desequilíbrio geográfico que, sendo explicável, deve ter a sua diminuição como objectivo.
10 por cento dos espectadores do Vila Flor vão a pé para os espectáculos. Sinal de que o público de Guimarães é predominantemente do centro urbano. Aliás, na apresentação foi mostrado um mapa do concelho que mostra a proveniência dos espectadores. A maioria é das freguesias da área urbana mais recente (Azurém, Urgezes, Creixomil), seguindo-se as três freguesias do centro tradicional, as vilas do Sul do concelho e da envolvente das Taipas. Quanto ao restante concelho, dois terços tem Zero por cento de espectadores no CCVF.
Os dados ontem apresentados mostram também uma grande transversalidade de públicos, nomeadamente a nível dos hábitos de consumo. João Teixeira Lopes sublinhou que coexistem “públicos que procuram eventos de massas com públicos de espectáculos eruditos”. Também a nível etário existe uma grande heterogeneidade de públicos, ainda que maioria dos espectadores tenha menos de 35 anos (quase 60%), enquanto que 46 por cento dos frequentadores do CCVF são licenciados.
55 por cento dos espectadores são mulheres, ao passo que 42% são trabalhadores assalariados qualificados. O CCVF tem também uma forte penetração na população escolar, sendo que 15% dos espectadores são estudantes. Outro dado relevante é o facto de 56% dos espectadores desconhecer o cartão CCVF. Destaco ainda o facto de 75% dos inquiridos afirmarem que frequentam outros espaços de cultura de Guimarães, destacando-se o CAE São Mamede, que partilha com o CCVF 48% do público.
Nos últimos quatro anos o CCVF recebeu 1670 espectáculos, o que atraiu 370 mil pessoas à sala vimaranense. O estudo do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, coordenado por João Teixeira Lopes, validou 861 inquéritos, que estão na base das conclusões ontem apresentadas.
Dentro de sensivelmente um mês será apresentado o relatório final do estudo, que já inclui os dados de entrevistas, observações e recolha etnográfica realizados pelos investigadores. A autarquia anunciou a intenção de tornar esse estudo público e promover uma discussão dos resultados com a população.
O Centro Cultural de Vila Flor assinala hoje quatro anos com um (dispensável) concerto dos Amália Hoje. Esta tarde também são dados a conhecer as conclusões do estudo de públicos realizado ao longo dos últimos meses pela Universidade do Porto.
Ainda que esses resultados nos possam permitir, mais logo, fazer uma análise fundamentada ao que vale hoje o CCVF, a experiência como espectador permita-me fazer um balanço positivo do que foram estes quatro anos.
Desde logo, porque finalmente Guimarães teve uma casa de cultura como a actividade cultural da cidade exigia. Tal como foi reconhecido em devido tempo, a escolha de Guimarães como CEC 2012 tem muito que ver com a existência de uma estrutura com esta qualidade.
Nestes quatro anos, há apostas muito positivas, desde logo no teatro. Ao aumentar a frequência e qualidade da programação teatral, o CCVF abriu portar ao crescimento do Teatro Oficina, que se tem afirmado a nível nacional como companhia de qualidade.
A assinatura de teatro e o cartão CCVF são também boas ideias, que ajudaram a fidelizar públicos. A continuação das apostas tradicionais nos eventos marcantes (Gil Vicente, Jazz, Encontros de Música), teve continuidade, juntando-se um novo evento, a Manta (que apesar do percalço deste ano, é uma excelente aposta).
No entanto, há também espaço para críticas. A maior de todas é que o CCVF, sendo uma muito boa casa de espectáculos, teima em não justificar o nome de centro cultural. Incentivos à produção local não encontro Só se for no teatro e no excelente trabalho do serviço educativo. E isso é curto.
Além do mais, a diminuição do número de espectáculos durante o último ano é motivo de preocupação (especialmente na área da música, que praticamente desapareceu nos primeiros trimestres), enquanto que há géneros artísticos que poucas ou nenhumas vezes passam por Guimarães, o que custa a compreender numa casa de espectáculos que quer ser eclética. E o palácio tem potencialidades que poucas vezes são exploradas.
Fotografia do Guimarães Digital.
Colina Sagrada © 2009
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