Um concurso obsoleto

A noite de sábado foi de ilusão ou desilusão para milhares de jovens. Os resultados do concurso nacional de acesso ao Ensino Superior definiram, para a grande maioria deles o futuro. O concurso de 2008 permite-nos tirar levantar algumas questões pertinentes.

O facto de os exames de secundário terem primado pela facilidade insuflou artificialmente as médias de acesso. Algumas Engenharias tiveram subidas de média na casas das duas unidades. Isto significa que muitos alunos cujas notas cobriam perfeitamente as exigências anteriores nas suas licenciaturas-alvo, viram a entrada no Ensino Superior lacrada por um modelo de acesso que está obsoleto.

Como se comprova com o concurso deste ano, basta introduzir um iniquidade ligeira para pôr em causa três anos de trabalho. Há aqui uma inversão de valores problemática, que atenta contra a avaliação contínua. O modelo de acesso às universidades e politécnicos não escolhe os mais aptos para cada curso, porque o faz depender apenas das classificações escolares - bastante sujeitas a distorções exógenas.

Defendo que devia existir um modelo como nos mestrados e doutoramentos, com base em critérios muito mais alargados e ponderados, como os curricula dos candidatos e as experiências pessoais anteriores. Ou a introdução de uma prova de acesso na faculdade a que se candidata, bem como entrevistas e testes psicotécnicos.

Na primeira fase de acesso ao ensino superior público foram colocados 44.336 alunos, mais 2.400 alunos do que no ano passado. E este é o número de admissões mais elevado dos últimos 12 anos. Sejam quais forem as razões por detrás destes números, o facto é que haverá mais jovens a enveredarem por uma formações superior, o que para um país abaixo de todas as médias no que diz respeito à formação dos seus cidadãos, é uma nota positiva.

Por último, e apesar do aumento de colocações, há uma centena de cursos com menos de dez alunos colocados. A Universidade portuguesa está dividida entre “ricos” e “pobres”. Há cursos perfeitamente sobredimensionados e desfasados da realidade. As diferenças abismais de qualidade de formação entre universidades - e mesmo dentro da mesma instituição - não fazem nenhum sentido, e vão apenas contribuir para que, mesmo mais formados, estes jovens portugueses não venham a ser, necessariamente, melhor formados.

11 reacções:

Paulo Lopes | 17:27

A verdade é que o exame foi igual para todos. E encobrir o insucesso com um suposto exame fácil é falso. Ou seja, as médias que todos tinham poderiam ter ficado iguais se todos tivessem aproveitado de igual forma o exame.

Mas num ponto estamos de acordo: o modelo de acesso ao ensino superior está falido. Claro que não faz sentido fazer variar a média em 50% num só dia. Mas todos sabiam as condições à partida.

João | 23:46

Paulo Lopes o problema não está nos 50% de um dia. Ou os 50% em dois ou três dias dependendo dos casos.

Eu fiz este ano o 12º ano, que não acabei, mas isso é outro assunto.
Fiz o 10º e 11º ano na escola das Taipas. E o ultimo ano na Xico. Durante estes 3 anos tive 2 turmas e varios professores e colegas.

E só lhe digo uma coisa, a diferença entre professores e entre escolas é gritante. Não há um modelo uniforme de avaliação interna. O que leva a grandes diferenças nas notas que os alunos conseguem alcançar. E se a isto juntarmos o fraco desempenho de alguns professores, que, felizmente, não apanham toda a gente, obtemos um grande cocktail de desigualdade.

Desigualdade esta que aumenta ainda mais ao compararmos a escola publica com a privada. Com as mesmas disciplinas muitos são os alunos que conseguem de um ano para o outro aumentar a sua média em 6 ou 7 valores. Ou até mesmo mais. Como é o caso do externato em Braga. Onde um ex-colega de turma de 10º ano que conseguia apenas negas, 3 e 4's, na escola das Taipas ao mudar de escola conseguiu uma média de 16. Agora diga-me, foram os ares de Braga que lhe fizeram bem?
E nem sequer estou a falar do ensino recorrente, mas sim do ensino regular.

Dá que pensar não dá?

Agora percebe-se o porque destas notas disparatadas. Porque a "culpa" não é só dos exames. É de todo o sistema de ensino.

Se as avaliações dos alunos fossem feitas sempre por exames nacionais. 2 por periodo por disciplina, tal como os testes, esta injustiça acabava.
Acabava isto e acabava o favorecimento que alguns professores dão aos "graxistas" ou o desfavorecimento a quem diz aos professores o que pena. Acabava a hipocrisia e injustiça.
E isto não era assim tão dificil de se aplicar.

Hugo Monteiro | 01:41

João:

Acho que a solução era as universidades serem mais rigorosas com os seus candidatos. No Brasil, acho eu, são as universidades, não o Ministério da Educação, que faz as provas de ingresso. Acho que bastava uma pequena entrevista com um especialista em recursos humanos para perceber quem merece e quem não merece as notas que lhe deram.

Jorge | 01:58

Eu pelo contrário acho que este exame simplesmente dá enfase á avaliação continua. Não exluí mais ninguem, do que outros do passado. Afinal é igual para todos.A questão será mais exactamente de perceber para que serve um exame destes? Neste sentido para nada, senão vejamos: não seria o exame nacional uma possibilidade de igualar desigualdes que todos sabemos existirem ao longo do percurso do estudante? Conseguindo através de um certo padrão de exigência seleccionar os mais capazes e ajustar notas de uma avaliação mais rigorosa por contrpartida de outras menos crediveis? Concluindo, acabou por se premiar aqueles que recorrem a um ensino menos cuidado e rigoroso, que a partida tiveram todas as condiçóes de entrar nos seus respectivos cursos. Urge repensar o sistema e apelar a uma cultura de maior exigência que prime sobretudo pela qualidade e não pela quantidade. Deixem-se de numeros que pouco ou nada interessam...

Paulo Lopes | 02:17

Na minha opinião a opção passa por uma junção de vários métodos. A manutenção do exame nacional de acesso, baixando-lhe a importância na nota final, um exame de aptidões para se detectar se aquele aluno está a escolher o sítio certo para entrar, e uma média ponderada que considere as disciplinas nucleares para o curso escolhido, bem como uma valorização de todo o trabalho extra-escola.

E a par disto, e respondendo um bocado àquilo que o João falou, uma correcta avaliação dos professores que realmente conte. Acabam-se os preferidos e os beneficiados. No meu secundário bastava dizer que se queria Medicina para os professores terem menos pudor em puxar as notas. E isto acontecia em muitas disciplinas...

Spicka | 02:19

No meu tempo para concluir o secundário tinha de fazer todos os exames e neles tirar pelo menos 9,5 valores. No meu tempo, as provas de ingresso tinham uma validade de um ano.

Depois reprovei a matemática. E no ano seguinte fiz exame de matemática. Já não precisava de 9,5, porque as regras mudaram e já podia fazer média com a nota final da cadeira. Tirei 12,2.

Concorri ao ensino superior com uma boa média (segundo as notas do último classificado dos anos anteriores). Não entrei por décimas, porque no ano passado (concurso para 2007/2008) todas as notas subiram em média 2 valores nos cursos da minha área (Artes).

Todos os exames que fiz de nada valem. Agora as notas dos exames são congeladas. Vou ver se me inscrevo nos exames no próximo ano. Pode ser que sejam oferecidos como estes, e assim fico com estas notas bem guardadinhas caso um dia pretenda ingressar noutro curso.

@ Paulo: como expliquei, penso que já deu para perceber que os exames não são iguais para todos. Porque agora basta fazê-lo uma vez, e se não for específico nem é preciso passar por ele...

@ João: por mim, a avaliação contínua acabava no ensino secundário. Fazia-se mais que um exame por ano e calculavam-se as médias assim. Já que o concurso é nacional a forma de acesso ao ensino superior não vai mudar, mudava-se a avaliação no secundário. Avaliação nacional para um concurso nacional.

A desculpa de que esse sistema dificulta a conclusão do secundário para quem não pretende entrar no ensino superior não serve para mim. Quem não tem capacidade para concluir o secundário que não o conclua. Mas isso não agrada a quem precisa que agradem as estatísticas.

Spicka | 02:24

Desculpem as vírgulas em excesso, mas estou cansado :)

João | 21:40

"A desculpa de que esse sistema dificulta a conclusão do secundário para quem não pretende entrar no ensino superior não serve para mim. Quem não tem capacidade para concluir o secundário que não o conclua. Mas isso não agrada a quem precisa que agradem as estatísticas."
Disseste tudo.

Ou então criavam dois secundários diferentes. O secundário para prosseguir para a Universidade e o secundário para acabar o secundário.
Assim acabava-se esta palhaçada.

Porque, por exemplo, no ano passado era possível um aluno de Economia, que nunca teve nem Biologia nem Fisica e Química no Secundário, entrasse em Medicina. E muitos destes que entraram fizera-no simplesmente porque os pais repararam que afinal sempre podiam ter um filho médico.

Ou os cursos "profissionais" nas Secundárias. É bem mais facil acabar o secundário com uma media de 18 ou 19 nestes cursos do que nos cursos "normais".

Paulo Lopes | 02:59

Caro joão, mas profissionais ou tecnológicos?

Quanto aos secundários diferentes: a diferença já existe. Mas existe algum estigma em relação a esta decisão. O secundário actual pode perfeitamente ser visto como a via de ensino para quem pretende o Superior. Porque quem tem como ideia terminar ao 12º ano devia terminar como técnico em algo. Então deveria optar pelo profissional ou tecnológico. Infelizmente existe dois tipos de casos ambos errados: Os que não escolhem esses cursos por acharem que são para os menos dotados. E ainda aqueles que se satisfazem em terminar o 12º sem saber nada de coisa nenhuma. E então acabam a procurar empregos em várias áreas. Porque não optarem por ser técnicos em alguma coisa? Custava-lhes o mesmo em tempo e ainda se podiam "arrepender" a tempo e fazer os exames ao 12º na mesma.

Falta informação na minha opinião.

João | 21:44

Eu falo dos cursos tecnológicos nas Escolas Secundarias. E não dos profissionais tipo Cenatex.

Os cursos tecnológicos são bem mais fáceis que os "normais", os Cientifico-Humanísticos. Também existem tecnológicos difíceis, mas são bem menos que o fáceis.

O que me revolta é que eles podem usar a nota que tem internamente para concorrer à universidade. Quando, por exemplo, eles nem precisam de fazer nenhum exame a Português para terminarem o Secundário. É um diferença enorme face aos "outros".

E já há casos de pessoal a usar estes cursos e depois entrar na universidade em cursos com médias bem altas.
É como aqueles de Economia que entraram em Medicina no ano passado.

No inicio do secundário tem que escolher, ou querem ir para o Superior ou não. Se depois mudarem de ideias e quiserem ir que façam mais exames.

Hugo Monteiro | 02:46

João:

Talvez testes de admissão nas universidades. Mas aposto que um aluno que nunca teve biologia, ou é um génio, ou vai espalhar-se em Medicina à grande e à francesa.