Liars não chegaram para aquecer

Desapontante o concerto de Liars que ontem abriu o festival Manta, no Centro Cultural de Vila Flor. Uma banda competente, mas que resulta melhor em disco do que ao vivo – pelo menos por aquilo que ontem se viu – e que nunca foi verdadeiramente capaz de aquecer a plateia.

Quando o começava a fazer – Plaster Caster of Everything chegou demasiado tarde – o concerto acabou. Ficou por isso a sensação amarga de que foi um experiência falhada. Não foi um mau concerto para abrir o palco para The National. Pena é que os nova-iorquinos só actuem 24 horas depois.

O espaço foi demasiado para as 450 pessoas que ontem assistiram ao concerto. Mas não foi por aí que o espectáculo correu mal. Faltou ambiente, é certo, mas Angus Andrew, vocalista da banda, parecia que estava a actuar para 4500 fãs. Saltou, dançou, molhou-se com whisky. Inebriou-se com a igreja da Penha. Foi um performer a encher o palco, excepto quando se esqueceu de cantar.

O que fez com que Pure Unevil ou Freak Out, por exemplo, soassem mais como um amalgama de instrumentos desordenados do que como as composições acertadas que se ouvem em disco.
Quanto ao Manta, tem tudo para resultar nestes moldes. O espaço, já o sabíamos, é excelente. Um jardim imaculado, entre um palácio do século XVIII e um edifício contemporâneo. E um cenário de fundo belíssimo – o Castelo e o Paço dos Duques, a Penha, os telhados do Centro Histórico. Mas isto é o meu coração vimaranense a falar.

E este não é um festival para os vimaranenses. Como ontem se viu no relvado do CCVF. Muitas caras de outras andanças (Braga, Porto, Vila do Conde). E um comboio que chegou com mais gente do que o habitual: passageiros exclusivos do Manta. Prova? O vocalista dos Liars fez elogios a Guimarães: “É uma cidade linda. A primeira cidade de Portugal”. Ninguém reagiu...

A Manta volta a estender-se hoje, para o muito aguardado concerto de The National. E público não vai falar.

4 reacções:

Benjamin Violante | 21:41

Vibrar com os comentários sobre a cidade de Guimarães(e o mesmo se aplica a qualquer outra zona do país)?! O que é que isso interessa?
Um festival para vimaranenses?! Porquê aplicar o mesmo conceito do futebol à "cultura"? Formular esta questão chega mesmo a ser criminoso. Mea culpa.
E aquele indivíduo no final do espectáculo?! Alguma explicação para a pobreza demonstrada quer a nível técnico, quer na selecção musical?!
Escusado será dizer que, na minha modesta opinião, o concerto foi maravilhoso. Pelo simples facto de não cair no óbvio...
Sobre o resto do festival... só conheço a Manuela Azevedo...

João Fernandes | 12:46

São opiniões, claro, mas eu achei o concerto excelente. Senti-me totalmente entretido o concerto todo (o que me quase abstraiu do facto do alinhamento ter estado longe de ser o que eu escolheria) e realmente como referiste o Angus foi uma das melhores presenças em palco que já vi.

Claro que se formos analisar o concerto do ponto de vista técnico a voz foi fraca, distante dos álbuns, mas é a "paga" que se tem quando se tem a energia e actividade que ele teve. Para ser tudo "certinho" o Angus tinha que estar quase sempre quieto. Sinceramente, a escolher prefiro o concerto como foi. E por isso discordo quando dizes que o público "não chegou a aquecer". À frente aqueceu e bem, my opinion.

O que eu não gostei: da duração do concerto e de um palco tão grande.

Sinceramente duvido que os National tenham feito melhor ontem.

Saudações de Coimbra

P.S. 1: Se alguém souber/tiver o alinhamento do concerto que o ponha por aqui, se faz favor :)

P.S. 2: Alguém sabe porque é que os Liars não tocam nenhuma música do 1º álbum? Eles já não gostam dele?

emanuel | 19:34

amigo, perdoa-me a franqueza, mas dizes demasiadas barbaridades em tão curto número de caracteres.

"uma banda competente" é quase uma piada de mau gosto, mas logo de seguida entras pelo campo do absurdo "(...) mas que resulta melhor em disco do que ao vivo.".

os liars não são nada disso. os liars são três pessoas que, apesar de muito normais (excepção feita ao aaron hemphill, que tem sempre ar de psicopata), se transfiguram quando fazem música. transfiguram-se quer pela via performativa do angus andrew, quer pela vontade de criar sons que desafiam o ouvido (em palco e em disco). acho que é a isso que te referes com a elogiosa passagem "O que fez com que Pure Unevil ou Freak Out, por exemplo, soassem mais como um amalgama de instrumentos desordenados do que como as composições acertadas que se ouvem em disco.".

tu vais a concertos ouvir discos? eu prefiro que tal não aconteça. isto é, compreendo perfeitamente que os young marble giants o façam, mas certamente teria ficado desiludido se isso acontecesse num concerto de liars.

"amalgama de instrumentos desordenados". esta frase causa-me espécie. então e o they were wrong so we drowned? e o drum's not dead? falas dos liars como se eles só tivessem o último disco e sofressem do imperativo de o apresentar dessa forma, seguindo os trâmites legais da indústria. pois isso é o que eles tentam destruir. há seis anos tinham acabado de lançar o they threw us all in a trench and stuck a monument on top e não tocavam uma única canção do disco ao vivo, exactamente como resposta à indústria bacoca que insistia em lhes dizer que só valiam pelo mr. you're on fire, mr.

o concerto que vi, que aparentemente não foi o mesmo que tu viste. o que eu vi fez-me saltar e dançar descoordenadamente, deixou-me banhado em suor (e em tronco nú, a partir de dada altura), e não teve um momento baixo que fosse. se calhar também tem que ver com a reverência que se presta a cada banda. tu próprio dás a entender que gostas dos national, que eu considero a banda mais odiosamente sobrecotada de sempre... entramos em planos de estética.

mas irrita-me essa mania dos bloggers de escreverem sobre coisas de que não gostam. qual é a utilidade prática disso, consegues explicar-me? quando escrevo uma crítica a um disco, não vou escolher um disco de que não gosto, simplesmente porque me parece mais construtivo fazê-lo sobre um outro que me pareça importante divulgar por ser bom...

e desculpa-me a correcção, mas escreve-se "plaster casts of everything".

Anónimo | 01:01

Eu até gostava de lançar mais alguma coisa para a fogueira, para além do Samuel autor do texto (como é óbvio), mas acho que os rapazes antes de mim já o fizeram e muito bem. Acho que houve alguém que estava tão ansioso pelos The National que não chegou a ver os Liars. Ou isso ou Pérolas A Porcos / Dá Deus Nozes A Quem Não Tem Dentes... Ao chegar (mesmo em cima do início do concerto) estava eu ainda a levantar o bilhete, a falar com a senhora do outro lado do vidro, e já a minha tensão arterial estava igual à do meu avô.
O concerto, como todos os que por lá passaram perceberam, foi óptimo, numa noite óptima, num espaço óptimo...
Contudo, face a este tipo de críticas que se referem a uma das bandas mais estimulantes (pelo menos) do século XXI como um aquecimento para os The National, acho que o mundo está perdido...e é pouco...os Liars a abrir para os National é como pôr em campo o Carlos Carneiro e deixar no banco o Van Basten...tenho dito!

João, Coimbra (de)