Um tiro na cultura

A Feira do Artesanato de Guimarães devia começar hoje. Mas já não começa. Isto porque "a falta de inscrições e a qualidade dos participantes" levou A Oficina a anular o evento, dando uma machadada numa realização com quase 20 anos de história e que era já um marco incontornável do cartaz cultural e turístico da cidade.

A justificação tem algum sentido, mas é apenas o nível mais superficial da questão. Importa perceber porque que é que os artesãos não se inscreveram no evento, porque é que uma Feira com reputação acaba, de repente, por falta de interesse de um ramo que, sabemos bem, precisa de tantas quantas as feiras possíveis, para rentabilizar o seu trabalho.

E isso ainda ninguém explicou. O preço das inscrições e o calendário do certame podem ajudar a perceber um pouco o desfecho inesperado da Feira do Artesanato. Outra questão tem a ver com um certo alheamento dos vimaranenses face ao evento. Particularmente desde que este deixou de se realizar no centro da cidade e foi transferido para o Multiusos.

Os artesãos queixavam-se nos últimos anos que passava menos gente pelo Feira e que quem lá ia comprava menos artigos. Isto porque, não só o espaço era "fora de mão" como a entrada era paga (ao contrário por exemplo da excelente Feira de Artesanato de Vila do Conde).

Depois da Feira do Comer, a autarquia mata mais um evento que tinha potencial turístico e promocional. Isto depois de, há anos, ter feito o mesmo com a Feira do Livro. Para um concelho que faz da cultura e do turismo duas das suas principais bandeiras, é desastroso.

3 reacções:

pedro silva | 01:05

os artesãos não se inscreveram porque deixou de ser de borla

Anónimo | 13:25

Não há almoços grátis.

Anónimo | 17:13

Deixem-se de lamechices. Já chega de endeusar muitos daqueles que de artesãos apenas têm o título.
O artesanato, ou melhor grande parte dele, não tem qualquer viabilidade económica e tem que se resignar a essa situação. Chega de lirismos e de falsas preocupações saloias com o artesanato.
Artesanato que é artesanato de qualidade e que teve a capacidade de se adaptar à realidade dos tempos actuais continua a vender, e bem. Esses não precisam da caridade das instituições como a autarquia para fazerem da arte uma profissão.
Infelizmente até mesmo as feiras que são apontadas como exemplo são sim um óptimo exemplo da situação do artesanato.

Já agora convém tentar perceber o que significa artesanato.
A wikipédia tem a seguinte definição:

"O artesanato é tradicionalmente a produção de caráter familiar, na qual o produtor (artesão) possui os meios de produção (sendo o proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalha com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima, até o acabamento final; ou seja, não havendo divisão do trabalho ou especialização para a confecção de algum produto. Em algumas situações o artesão tinha junto a si um ajudante ou aprendiz."

Basta visitar qualquer feira de artesanato para perceber que qualquer semelhança entre o produto exposto e esta definição é pura coincidência. Talvez as semelhanças fossem encontradas se a dita feira de artesanato fosse na China. Aliás alguns dos produtos ostentam orgulhosamente a etiqueta "made in China". Qualquer loja dos 300 é uma feira de artesanato.

Não me lixem!

É fácil ter discursos prosaicos acerca de tudo, abordando a questão pela rama. Sejamos sinceros e coerentes. Os mesmos que criticam o fim da feira seriam capazes de dizer o pior possível sobre a "defunta" feira de artesanato, tecendo, com a maior sapiência" avaliações negativas e, porventura dizendo: "É preciso ter coragem para acabar com estas mentiras. Mais vale acabar com ela."
Concordo com a iniciativa da autarquia em acabar com a feira. Costumava ir ao multiusos e, de facto, a qualidade deixava muito a desejar.