Think Pong: Sete vezes sete - o que vale a Tempo Livre

Passam sete anos desde a inauguração da Cidade Desportiva. Nesse tempo foi a cooperativa Tempo Livre a principal intérprete das linhas orientadoras do município em matéria de desporto. Mas a acção da cooperativa vai para além do desporto, nomeadamente devido às características do Multiusos. E é aí que está a sua principal falha.

Mas vamos por partes. A Tempo Livre gere sete áreas distintas, umas com maior sucesso do que outras. O complexo de piscinas e o parque Scorpio são, a meu ver, duas apostas ganhas. Quer em termos de competição, como de incentivo à prática desportiva. Boa tem também sido a gestão dos pavilhões desportivos das escolas, abrindo-os como mais um local de prática desportiva, o que é verdadeiramente relevante nas áreas periféricas do concelho.

O principal trunfo da cooperativa é CMAD. O Centro Médico é um equipamento único no país, que oferece um serviço que é verdadeiramente de interessa público, contribuindo para a prática de desporto em segurança, num concelho onde se multiplicam os espaços desportivos, formais e informais.

Curiosamente, o CMAD funciona nas instalações daquela que é, a meu ver, um dos grandes fracassos da política de desporto a Tempo Livre. A pista de atletismo Gémeos Castro nunca conseguiu afirmar-se na área do atletismo. Tirando os nacionais de corta-mato (à volta da pista e não dentro dela), pouco ou nada de relevante em matéria de atletismo tem sido feito naquele equipamento. O relvado foi entretanto rentabilizado com as escolinhas de futebol e a equipa de rugby, mas a pista tem servido para pouco mais do que circuito de manutenção para semi-amadores e veteranos. É pouco para a dimensão do investimento.

A Tempo Livre tem sido também incapaz de garantir que a pista de cicloturismo existente no traçado da antiga ligação ferroviária a Fafe se assuma como um espaço de lazer e desporto. Além de um espaço pouco usado, o equipamento dá ares de abandono e descuido, que, quilómetros à frente, no concelho vizinho, desaparecem.

Mas o grande ponto de discussão da acção da cooperativa de desporto é o Multiusos. Do ponto de vista desportivo, este foi, nos inícios, um local onde havia uma forte aposta, com eventos de grande nível a passarem por Guimarães. Nos últimos dois anos praticamente não houve desporto no Multiusos. E ainda que a tendência pareça inverter-se por estes dias, não apaga o facto de, nos últimos tempos, o pavilhão ter sido mais um centro de exposições e congressos (com sucesso, diga-se) e um espaço de concertos chunga e musicais infantis.

Não sei se faz sentido que o Multiusos tenha programação própria (provavelmente não) mas a programação parola e a falta de visão (que até existe noutra áreas) mostra apenas uma coisa: a Tempo Livre tem vocação para a gestão desportiva. Mas não lhe peçam mais do que isso.

8 reacções:

Hugo Monteiro | 19:14

Digo o mesmo que do outro lado: o Multiusos não é para as «elites», seja lá o que isso for. Desde que faça dinheiro, não é mau.

Samuel Silva | 19:46

Se faz dinheiro ou não ninguém sabe, uma vez que as contas não são públicas.
Nada contra a programação popular. O que chateia é que seja apenas essa.

Amadeu Portilha | 09:55

Caro Samuel,
agradeço que tenha ocupado parte do seu precioso tempo a comentar no seu blogue um assunto tão banal como o papel da Tempo Livre na comunidade vimaranense, e mesmo depois de nos ter acompanhado, enquanto jornalista, a uma visita guiada recente que fizemos a todas as instalações, cometeu duas imprecisões que urge rectificar: em primeiro lugar, a Pista de Cicloturismo não é gerida pela TL desde 2004;em segundo lugar, a Pista de Atletismo tem recebido inúmeras competições nacionais e é mesmo utilizada por atletas de referência nacional, que aí realizaramm o seu estágio pré-olimpíco. Reduzir essa instalação a um circuito de manutenção para semi-amadores e veteranos é um mero delírio de escrita.
Permita-me, ainda, um desabafo: sei que estou a anos-luz da sua refinada visão e sensibilidade cultural, mas custa-me a crer que o que diz sobre o Multiusos seja algum reflexo da inteligência que lhe reconheço ter. Até porque já o apelidou em tempos de "meca da mediocridade", elogiou-o pouco depois pela extremo bom gosto de concertos com os Scorpions e o Joaquín Cortéz e pasmo agora quando acha que se transformou num "espaço de concertos chunga e musicais infantis", curiosamente dias depois de termos acolhido a Mariza (5.000 pessoas) e o concerto único dos GNR+GNR (4.000 pessoas).
Não gosta dos Carreiras? Incomoda-o os musicais infantis? Deverá o Multiusos ser gerido ao sabor dos gostos musicais das pseudo-elites culturais da cidade ou dos gostos pessoais de quem o dirige? A minha opinião e a opinião de quem comigo trabalha é que este é um espaço público, aberto a todas as sensibilidades e segmentos etários, e se 7 ou 8.000 pessoas querem ver o Tony Carreira ou se 3 ou 4.000 crianças e pais se deliciam a ver o Noddy, o Ruca ou a Leopoldina, porque é que o Multiusos lhes há-de fechar as portas?.
O que o incomoda, parece-me, é que temos tido a capacidade de ter taxas de utilização e fruição do espaço muito elevadas, e foi para isso que o Multiusos foi pensado e construído. Para satisfazer os seus gostos pessoais ou as bandas e grupos que em cada post diz ser do melhor do mundo, qualquer sala com meia dúzia de metros quadrados chega, e escusava-se de ter feito o Multiusos!
Meu caro, no dia em que os espaços públicos subverterem a sua lógica comunitária de funcionamento à exclusiva sensibilidade dos seus gestores ou das elites dominantes, deixam de cumprir a sua função e transformam-se em espaços ocos e vazios. No Multiusos isso não vai acontecer, pelo menos enquanto andarmos por cá.
Um cordial abraço.
Amadeu Portilha

Paulo Lopes | 12:36

Samuel,
Não posso concordar contigo quando dizes que boa tem sido a gestão dos pavilhões.
Não conhecendo a dimensão da sua utilização, conheço isso sim, e como referi no meu texto, algumas falhas ao seu sistema de aluguer.
Cheguei a utilizar esse mesmo pavilhão, mas quando solicitados por uma segunda vez para a prática de uma modalidade diferente do futebol, não havia quem colocasse uma rede, nem pavilhão alternativo ao de aquecimento do Multiusos. Mas isso depende dos funcionários das escolas, percebo perfeitamente.
Quanto à falta de eventos marcantes, a nível desportivo nos últimos anos, disse do outro lado, que era importante um evento da dimensão de um europeu/mundial de uma modalidade de pavilhão, para dar um novo salto em frente.
Da música chunga, já tivemos oportunidaed de falar mais vezes. Se há quem a ouça, tem que haver quem a proporcione.
Concluindo, o Think Pong desta semana esteve bem! Conseguimos ter opiniões distintas, convergir em alguns pontos, e ainda proporcionar a quem nos lê (a ti em especial) um debate público interessante, directamente com quem realmente importa, a direcção da própria cooperativa.

Tiago Laranjeiro | 16:37

Venho atrasado, mas espero não vir fora de tempo para a discussão.

Hugo Monteiro, a vocação da Tempo Livre e do Multiusos não é fazer dinheiro. A Tempo Livre não é uma empresa privada mas uma cooperativa cuja maioria do capital está nas mãos da Câmara e que pretende gerir algumas infra-estruturas desta (embora o seu objecto não seja só este). As contas, não as conheço, mas suponho que quem faça parte da cooperativa as conheça...

Não me parece também que a vocação do Multiusos seja formar públicos, como julgo que será a d'A Oficina na área da programação cultural. Vejo o Multiusos um pouco como o Coliseu de Roma: um grande espaço para grandes espectáculos para grandes públicos, sejam eles ExpoAves, ExpoTunnings, Recepções ao Caloiro ou concertos de Madredeus, Mariza, Rucas e Noddys, GNR+GNR ou Carreira&Filho, Lda.

Pão... e circo.

E muito bem.

Hugo Monteiro | 17:36

Formar públicos é uma expressão que me deixa aterrorizado.

Ainda bem que fazem dinheiro, então. Já viste se andassem a gastar os meus impostos em espectáculos para meia dúzia?

Tiago Laranjeiro | 18:13

Também nunca percebi bem essa expressão do formar públicos, mas ouvi dizer que está na moda...

Não sei se fazem dinheiro ou não. Ainda bem que gastam os meus impostos em algo útil para a cidade e para os cidadãos, como são os espaços desportivos geridos por esta cooperativa...

Espectáculos para meia dúzia? Deves estar a confundir com o CCVF... No Multiusos é só aos milhares...

Hugo Monteiro | 20:36

"Espectáculos para meia dúzia? Deves estar a confundir com o CCVF... No Multiusos é só aos milhares..."

E ainda bem. Não disse o contrário.