Think Pong: Um país livre não pode compactuar com totalitarismos

É quase uma inevitabilidade que, no início de cada ano lectivo, o país discuta as praxes académicas (prática corrente nas universidades, e hoje absurdamente estendidas a outros níveis de ensino). Este ano, a discussão foi acesa por mão governamental, o que é uma novidade em Portugal e um sinal de que algo está a mudar.

O ministro Mariano Gago esteve bem quando este ano alertou as direcções das universidades e politécnicos para os abusos da praxe. Foi apenas coerente com a sua própria consciência depois de há uns anos lhes ter chamado, muito apropriadamente, “práticas fascistas”. E abriu a porta a uma maior atenção do Estado para com estas práticas, que pode levar até à sua intervenção.

É a mais dura e crua das verdades: As praxes académicas e todo o sistema que gravita em torno das mesmas são uma prática fascista e castradora da liberdade. Ao contrário do que apregoam os defensores da dita, a praxe não é inclusiva, é totalitária. E um Estado livre não pode admitir que dentro das suas instituições – como é o caso da Educação – existam práticas que, noutro âmbito, seriam certamente consideradas criminosas.

Os decisores públicos e políticos são escolhidos para decidirem o melhor para os cidadãos de acordo com os valores do Estado. Quando uma prática atenta contra valores básicos nem devia ter discussão a manutenção de tais práticas: Portugal devia pura e simplesmente proibir este tipo de práticas pestilentas no interior de espaços públicos.

Há todo um sistema perverso que a praxe entroniza. A começar pela castração de direitos aos novos alunos. Esta realidade é estendida e amplificada quando toca àqueles que legitimamente se colocam fora desta prática obtusa, com a complacência das instituições pública. E isto faz com que a Universidade, outrora um espaço de afirmação dos valores democratas e da liberdade, seja hoje um espaço onde o espírito livre e crítico é toldado por uma mão controladora.

O que dizer por exemplo da atitude da direcção do Piaget de Viseu que voltou a permitir a praxe depois dos protestos dos alunos? É lamentável e revoltante. Mas explica-se facilmente. As lógicas de poder dentro das universidades assim o promovem. Há uma inadmissível cumplicidade entre quem dirige as praxes e as associações académicas. Como há uma torcida lógica de conivência entre as reitorias e as Académicas. O objectivo é perpetuar o poder e os benefícios que dele se tiram, nem que para isso seja necessário como neste caso recuar numa decisão por pressão dos alunos.

É tempo de acabar com isto.

6 reacções:

SicGloriaTransitMundi (Miguel Silva) | 12:12

A questão das praxes é um assunto que se levanta todos os anos por esta altura.

Digo-te que sou a favor de uma praxe inclusiva, que ajude os alunos a ambientarem-se à nova realidade que enfrentam.

Os que praxam devem ter sempre a consciência disso mesmo, mas infelizmente nas nossas universidades o que mais há são energúmenos que se aproveitam disto para se mostrarem e auto-valorizarem!

Para muitos, é a primeira vez que saem de casa e essa pode ser uma experiência traumática!
Daí que me parece que tudo deve ser feito, principalmente por colegas mais velhos, para os ajudar a lidar com o problema!Intimidá-los, rebaixá-los e humilhá-los só piora a situação.

Tiago Laranjeiro | 13:19

Há praxes e praxes. A "praxe" em si é uma coisa boa, traz uma experiência totalmente diferente a quem a pratica com consciência e razoabilidade. As "caçoadas", como eram chamadas antigamente, coisa a que agora vulgarmente se chama "praxar" (o momento em que os "doutores" estão com os caloiros a desenvolver uma qualquer actividade) é que muitas vezes descamba em exagero. O caso do Piaget é disso exemplo.

Mas curioso como quanto mais pequena é a instituição de ensino superior, pior é a qualidade da praxe.

A praxe enquanto "prática académica", com todas as tradições e símbolos que acarreta, é algo de positivo e que faz todo o sentido, principalmente nas instituições mais antigas e com mais história.

Para finalizar, acho que uma posição tão extremada como a tua, quase jacobina, toma a parte pelo todo, o que nunca dá bom resultado...

Riot | 16:23

Não existem boas praxes. Se o objectivo das mesmas é a intergração, então torna-se absurdo que dure um ano inteiro. Se é necessário um ano para integrar as pessoas, então o modelo falha claramente.

A praxe subsiste através de um ciclo vicioso. Quem foi praxado quer praxar. Chamem-lhe vingança, se quiserem.

A praxe é, sobretudo, poder. Quem praxa tem poder. Que nunca teve e que, provavelmente, nunca irá vir a ter. Qualquer imbecil se torna respeitado e temido desde que vista um traje.

pedro romano | 15:15

Não há problema nenhum com a praxe desde que se salvaguarde que quem não quer entrar na brincadeira não seja seja coagido a fazê-lo. Naturalmente, as coacções assumem múltiplas formas.

Tiago Laranjeiro | 20:28

Riot, eu fui "praxado" e nunca quis "praxar". Como eu há muitos.

Paulo Lopes | 00:39

Oh riot! Não existem boas praxes? Ora vai lá dar um salto ao meu blogue quando falei daquela faculdade que pôs os alunos a recolher voluntários para dadores de medula óssea.

E isto para dar um exemplo. Vá, não generalizes.

E há muitos "idiotas" que quando vestem o traje, são tão vingativos e tão cheios de sede de vingança que fazem nos caloiros enormes amigos.