Do avesso

Ontem lia no Sine Die um post bastante pertinente sobre as diferenças ideológicas entre os principais partidos de Portugal e de Espanha. E acrescendo mais: os comentadores de serviço até acham tudo muito normal, criticando, pelo contrário, os espanhois por não se entenderem. Esquecem-se é de uma coisa: a diferença entre a esquerda e a direita está exacatamente aí, nas diferentes concepções sobre a vida pública. De facto, não podia concordar mais: Isto está tudo do avesso.
Em Portugal a direita apoia as tácticas sindicalistas e a esquerda privatiza serviços públicos. Como se isso não bastasse, o PS veio armar-se em defensor da moral e bons costumes, propondo a proibição de piercings, ainda que sob a capa da saúde pública. Vá lá alguém perceber isto...

4 reacções:

paulo dumas | 11:28

Talvez as diferenças entre esquerda e direita, hoje, estejam esgotadas e não façam tanto sentido quanto isso.

Anónimo | 20:57

Só não percebe quem não quer ou quem é burro.
Os esquerdistas do poder de agora, abocanhado o mesmo,e como não são burros, sabendo das regalias que podem auferir, não despem a roupagem dizem-se de esquerda - e fazem política de direita (privatizar tudo que dá lucro e colher os respectivos frutos).Isto não está para tolos.

Luís Carvalho Soares | 17:30

Caro Samuel:

Pela primeira vez que faço um post num blogue que não o meu. Faço-o naquele que considero o melhor blogue de Guimarães.

Nunca senti antes necessidade de o fazer porque tudo aquilo que nestas (e também na minha) plataformas se vem discutindo, venho fazendo pessoalmente, com amigos como tu, familiares entre outros. No entanto este é um tema mais profundo e que carece de interlocutores mais expeditos como tu e como o Paulo que também já o comentou.

E é precisamente de vocês os dois que quero partir, porque se dois dos mais importantes "fazedores" de opinião acham que os partidos estão trocados, ou as diferenças entre eles se esgotaram, então é porque os agentes político-partidários não conseguem passar uma mensagem que para mim continua a ser clara, e que vou tentar explicar.
A esquerda de hoje, não sei se a moderna de Sócrates, ou outra qualquer, está e é diferente da concepção marxista a que eu, e outros como eu, nos habituamos a escutar e observar. Evoluiu, para bem da adequação do próprio Partido Socialista às novas realidades. Mas há coisas que nunca mudam! Permitam-me enunciar algumas medidas deste Governo ( entende que não estou a fazer defesa das medidas, mas antes da concordância das mesmas com os ideias, que aqui é posta em causa) que parecem contraditórias com o ideário socialista, mas estou certo que não o são e que nisso hão-de concordar comigo.

1 - O aumento da idade de reforma, é sem dúvida uma recessão no espiral de conquistas do Estado Social. Mas é também esta medida que permite sustentar a Seg. Social e garantir que nós jovens possamos aspirar a uma reforma.

2 - A equiparação dos regimes de seg. social dos funcionários públicos aos restantes trabalhadores, parece-me uma medida da maior elementar justiça social.

Uma outra forma de se verem as diferenças será a de se pegar nos projectos de reforma da Segurança Social, apresentadas pelo Partido Socialista, e pelo PSD de Marques Mendes, em boa verdade se diga esse sim coerente com o seu partido.

Estas e outras medidas, são encaradas como contrárias à génese do Partido Socialista, e em boa verdade, são pelo menos contrárias ao que o Partido Socialista vem fazendo e apregoando desde 75.

Mas estes são os sinais do tempo. Tempo em que não é mais possível perpetuar a espiral garantística de Direitos Sociais que foram concedidos, e muitos dos casos bem, desde o 25 de Abril, mas que hoje são incomportáveis e conduziram à ineficiência do Estado.
O Estado que absorve grande parte do seu Orçamento disponível, no seu próprio funcionamento, desperdiçando Investimento Público, a título de exemplo.


Haveria duas soluções. Manter tudo como estava, e viver no maravilhoso mundo do faz de conta, em que tudo está bem. Ou então mudar. Claro que falta saber se é esta a mudança que Portugal precisa. Como o post já vai longe permite-me concluir dizendo que me parece perigoso esse discurso de que o modelo partidário da democracia e do exercício do poder está condenado, porque “eles” são todos iguais. Claro que não o são. Mas se olho nú parecem, cabe-nos a todos nós simplificar dizendo e exemplificando o contrário.
Da minha parte, e das duas soluções que apresentei, direi que a segunda é obviamente precisa.

Abraço

Samuel Silva | 12:22

Caro Paulo,

não acredito que já não existam diferenças entre esquerda e direita. De resto, entendo que a realidade que apontas seja no fundo a principal culpada pelo actual estado de descrédito que atingiu os sitemas democráticos.

Amigo Luís,

Obrigado pelo elogio.
Quanto ao tema em discussão não me parece que a questão seja apenas "fazer passar a mensagem". A questão não é de estilo, mas de substância.

A esquerda não tem que ser marxista, mas não pode negar o seu ADN. E isso, permite-me, é o que tem feito desde o desvario de Blair, por exemplo, e os seus reflexos entre nós. Olhar para Espanha e ver um país em que a luta política ainda se faz de diferenças ideológicas marcadas é de algum modo frustrante.

Estou inteiramente de acordo contigo nas medidas que apontas. O Socialismo não pode ser confundido com "garanticismo" (perdoa-me o neologism) que parece ser apanágio do PCP, por exemplo.

Acho que cabe ao Socialismo moderado (que deve ser o PS) refundar o Estado Social para que ele se salve de um "crash" capaz de fazer sorrir algumas mentes liberais.

O meu discurso não é o de que são todos iguais. É o de que andamos meio ao avesso, quando até Marcelo Rebelo de Sousa defende um PSD à esquerda.