Fado ameaça Nicolinas

Há vários anos que por Guimarães se fala da candidatura das Festas Nicolinas a Património Oral e Imaterial da Humanidade. Houve muito trabalho na Assembleia Municipal para levar este assunto avante, através da criação de uma comissão para avaliar a viabilidade da mesma e de pedidos à Assembleia da República para ratificar o tratado da UNESCO referente a este galardão (o que acabou por fazer). Mas eis que recentemente soubemos que os esforços do Estado estão todos postos na candidatura do Fado à mesma distinção. E eis que o poder político vimaranense mostra-se desconfiante quanto ao futuro da candidatura vimaranense.


Penso que ninguém duvida da mais-valia que as Nicolinas representam no âmbito da cultura vimaranense, nem da oportunidade que 2012 é para dar mais visibilidade às Festas e, eventualmente, para permitir esta candidatura. Os resultados da comissão da Assembleia Municipal foram claros: falta trabalho. Mas anda alguém a fazê-lo ou perdeu-se o interesse no assunto?

11 reacções:

Sílvia | 10:58

é vergonhoso que se tenha deixado para trás esta candidatura, que se tenha deixado andar durante muito tempo esta possível candidatura e nada se tenha feito realmente para a sustentar e, agora, argumentem que o fado tem mais "possibilidades" para essa candidatura uma vez que as nicolinas não têm muito trabalho feito... enfim... a culpa nunca é dos próprios irresponsáveis!

Samuel Silva | 11:01

Boa questão, Tiago. Eu acho incrível a forma como Magalhães "naturaliza" a derrota. Como se fosse inevitável que o Fado tenha prioridade.

As Nicolinas andaram à frente e não é por serem uma tradição local que vão ser ultrapassadas. Não. É porque nos últimos anos ninguém se lembrou da candidatura.

Os estudos que faltavam fazer continuam sem ser feitos, uma equipa de preparação da candidatura continua sem existir.

2012 era um momento extraordinário para elevar as Nicolinas a Património Mundial. Mas parece-me que, desde que há 2012, não se pensa em mais nada. Erradamente.

João Gil | 18:01

É uma pena que os responsáveis locais tenham deixado cair a questão a pontos de o Estado português dar prioridade ao Fado. 1012 não justifica tudo. Se bem que acho que é uma questão de tempo até esta candidatura ter sucesso.

Para efeitos de promoção do país, o Fado tem bastante mais importância do que as Nicolinas, mas seria perfeitamente possível, julgo eu, apresentar ambas as candidaturas, pois ambas têm iguais hipóteses de sucesso. Será um caso de culpa do poder local e não do poder central.

Tiago Laranjeiro | 18:17

A questão aqui é que, tanto quanto sabemos, a candidatura das Nicolinas é falada há mais tempo que a do Fado. Certo que provavelmente terá menos capacidade para avançar que esta última, dados os estudos e o reconhecimento que esta música tem.

Certo também que muito pouco foi feito por quem o poderia fazer. Exceptuando o bom trabalho da comissão da Assembleia Municipal, não sei de qualquer outra iniciativa no sentido de continuar os trabalhos para promover esta candidatura.

E veja-se que a candidatura do Fado é promovida por uma Câmara Municipal (a de Lisboa), de um Museu dedicado a esta música e de um musicólogo de renome. Para além disso, tem o total apoio do embaixador português na UNESCO.

Com apoiantes deste peso, como podem as Nicolinas pretender avançar se nem a Câmara acredita na candidatura?

Estamos a perder uma grande oportunidade de valorizar o património vimaranense.

aan | 19:40

Caros amigos,

Desculpem lá, mas parece-me que esta discussão é a do costume: estão a chegar as Nicolinas, começa a falar-se nas Nicolinas; acabadas as Nicolinas, quase todos se esquecem delas. E a dizer-se que ninguém faz nada por elas. E a fazerem-se comparações que só servem para as diminuir. É bom que se ponham os pés bem assentes no chão e que se comece a fazer o trabalhinho de casa.

Em primeiro lugar, o fado e as Nicolinas não são realidades comparáveis. Portanto, será melhor que não se façam comparações, sob pena de ficarmos a perder. O fado é um género musical português, com expressão em todo o país, constituindo uma das referências da nossa identidade nacional. É, inegavelmente, uma das marcas da nossa afirmação cultural na cena internacional. Sobre o fado não faltam estudos. As Nicolinas são uma muito interessante manifestação local de Guimarães. Numa pesquisa no Google, encontrei: 5.240.000 referências ao fado e 22.400 às Nicolinas. Entre os livros da Biblioteca Nacional encontram-se 506 registos para fado e 7 registos para Nicolinas. Será preciso explicar melhor?

E a ideia de que as Nicolinas teriam prioridade em relação ao fado quanto à candidatura a Património Imaterial, perdoem-me mas estão errados. É certo que a primeira vez que alguém sugeriu a candidatura das Nicolinas foi em Janeiro de 2005, mas a verdade é que a comissão que foi criada para analisar a eventual formalização de uma proposta de candidatura só foi criada em 2008, tendo apresentado as suas conclusões quase no final desse ano. Porém, é público que a candidatura do fado começou a ser trabalhada, a sério, em 2004.

E, que eu saiba, não está ninguém a trabalhar na candidatura das Nicolinas. E antes de se avançar, há muita investigação a fazer.

Tiago Laranjeiro | 00:04

Caro António Amaro das Neves,

Tem toda a razão no que diz. O Fado tem mais possibilidades de ser classificado como POIH do que as Festas Nicolinas. De qualquer forma, é de estranhar a pelo menos aparente inacção na preparação da candidatura ou incentivo de estudos (que claramente faltam às Nicolinas). Ainda são mais de estranhar as declarações do Presidente da Câmara que nos apresenta este artigo do JN, no qual parece encarar como inevitável a perda da maratona da candidatura quando ainda nem foi dado o tiro de partida.

aan | 13:20

Isso de que fala, já é outra matéria. Uma vez posto em andamento o processo, não se deve desistir. E Guimarães não deve entrar num processo destes para perder. Há, de facto, muito trabalho a fazer, mas não me parece que se deva ficar à espera que outros o façam. Essa terá que ser uma obra a erguer, em primeiro lugar, pelos principais interessados, os nicolinos, que terão que arregaçar as mangas e começar a congregar vontades e contribuições. Não me parece que este seja um território a municipalizar. A Câmara terá uma palavra a dizer e um importante papel político e organizativo a desempenhar. Mas mal andaríamos se o processo não fosse dinamizado pelo movimento nicolino. Ora, parece-me que é exactamente aí que começa a inacção.

Samuel Silva | 15:42

Bem visto e bem dito, carro Amaro. Concordo particularmente quando diz que só se fala de Nicolinas quando as festas se aproximam.
O que estranho é que nada tenha sido feito desde que a ideia começou a ser equacionada.

Tiago Laranjeiro | 20:12

Também a mim não me parece que seja território a municipalizar, mas não estou a ver a preparação da candidatura a ganhar força se os esforços não forem partilhados com a Câmara. Daí que veja a proposta da Comissão da Assembleia Municipal para a criação de uma equipa que congregue a Câmara e os Nicolinos para promover a candidatura como bastante justa.

aan | 22:48

Caro Tiago,

Não ponho em causa a partilha. Acho que a deve haver e acho que a Câmara, pelo seu peso institucional, deverá desempenhar papel de relevo no processo de candidatura. Quanto a isso, espero que não fiquem dúvidas. Mas também estou certo de que o processo só andará se tiver como força motriz o movimento nicolino.

Porém, o que vejo é o contrário: vejo os nicolinos de braços cruzados, à esperta que alguém faça alguma coisa por uma causa que, em primeiro lugar, será a sua causa, e a virem a terreiro, com intermitências, com o discurso da lamúria, lamentando-se porque ninguém faz nada. Confesso que já me vai faltando a paciência para esta conversa da treta. De que é que os nicolinos estão à espera, afinal? Deixem-se de conversa fiada e façam acontecer.

Anónimo | 00:59

Nesta, como noutras áreas da sociedade, fala-se mais do que se pratica.
As luzes da ribalta são aliciantes e tentadoras. Deitar mãos ao trabalho é que já é outra "conversa".